E hoje, a propósito de nada em especial, saiu uma matéria sobre Garfield na Folha, entrevistando o Jim Davis.
Ou talvez o mote seja o aniversário de 30 anos do personagem, mas isso foi cinco meses atrás e eu achava que jornal fosse uma coisa diária?
Mas, enfim.
Dentro da minha cabeça, pensar no Jim Davis é pensar logo depois no Charles Schulz e no Bill Watterson. Os três se fizeram em tinta e papel de jornal, se fizeram dentro dos quadradinhos das tiras, e se fizeram criando personagens absurdamente icônicos.
E mais ou menos acabam aí as semelhanças.
Watterson cuidou de Calvin como um idealista. O personagem vivia em sua cabeça, e os quadrinhos eram o veículo que expressava aquela existência. Ele rosnou quando a indústria de licenciamento foi se chegando pra perto do personagem, e depois mordeu e chacoalhou quando ela ignorou o aviso. Quando achou que foi a hora, encerrou a tirinha. É irretocavelmente reverenciado, e já vi quem dissesse ser ele o último grande autor da mídia.
Schulz acha que Watterson foi longe demais, pra ele faz parte do trabalho do cartunista cultivar o aspecto comercial da sua obra. Não só o artista coleta royalties, mas também o sindicato, e os produtos movimentam dinheiros e pessoas. Mas ele é um artista acima de tudo: escreveu e desenhou pessoalmente o Minduim por praticamente meio século. Só parou, só se aposentou, literalmente em seus últimos dias.
Ainda que tivesse construído um império de licenciamento, quis:
a) Manter o controle dos personagens por perto, cuidando pra que Charlie Brown não vendesse, por exemplo, lâminas de barbear na Alemanha (o tipo de coisa que acontecia quando as negociações estavam nas mãos do sindicato), e
b) Não perto demais, nem tão pessoalmente, porque ele era um artista. Sua equipe cuidava dos negócios, ele escrevia e desenhava, e palpitava largamente nos desenhos animados.
Schulz revolucionou a mídia, e ao mesmo tempo foi intensamente pessoal, quando quis foi também, ao seu modo, político, e ainda que nos últimos anos rodassem murmúrios pelos corredores do mundo de que a tirinha vinha perdendo a vitalidade, o todo da obra é de importância e qualidade monumentais. O ensaio de Umberto Eco sobre o perfil psiquiátrico dos personagens é testemunho da vida continuamente soprada dentro deles pelo seu criador.
Jim Davis começou com lápis e papel e idéias na cabeça, como os outros dois. Garfield, no contexto da época, é cool, e hip; é assistir a filme do Woody Allen e passear pelo Central Park em tardes de outono. Passado o começo dos anos 80, virou outras coisas. Uma propriedade intelectual, o conteúdo do guia de referência para os desenhistas da Paws, Inc., o estúdio de Davis. Material escolar, lancheira e mochila, estampa de roupas. Uma imagem e uma marca, mas não mais uma idéia viva e orgânica como foram Calvin e Snoopy do começo ao fim. A diferença é que Garfield se tornou um processo industrial, com procedimentos controlados e controle de qualidade. O envolvimento de Davis com a criação das tirinhas diárias é, atualmente, incidental. Na entrevista da Folha, ele diz que se reúne com a equipe uma vez por mês. Um personagem que sai da cabeça do artista para se transformar no resultado de um processo controlado de criação é um personagem morto. É o resultado aleatório das combinações possíveis sempre dos mesmos elementos: lasanha, segunda-feira, aranhas, ennui, chute na bunda do cachorro.
Nunca vai acontecer algo como a introdução de Franklin, o menino negro, nas tirinhas do Charlie Brown em 1968, quando Schulz quis fazer uma declaração política. Inclusive porque Davis, novamente cito o jornal de hoje, não quer política em suas tiras. Segundo ele, elas devem ser lidas, consumidas, no mundo todo. Se uma das funções sociais do artista é provocar, a do empresário é manter a linha de produção asséptica.
Mas notem que não questiono o talento de Jim Davis. Garfield foi, sim, uma criação brilhante. E prefiro o seu próprio traço ao dos desenhistas do estúdio. Tem mais irregularidades, mais personalidade; é mais vivo.
O que questiono são as suas decisões. Ser o gerente de uma marca, um empresário, ao invés de um artista. Ter transformado sua criação num commodity, o extremo oposto da atitude de Watterson e distante até do feliz meio-termo encontrado por Schulz.
Os elogios possíveis a ele hoje são números, de jornais que o publicam, de milhões de dólares em royalties de licenciamentos. Porque elogiar Garfield hoje como arte, e não como produto, é como elogiar o manual de instruções de uma TV como narrativa, e não como informação.
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Dito isso, tenho imenso respeito por uma atitude recente de Jim Davis: não só ele não mandou os advogados atrás de Garfield minus Garfield, como aprovou o site e a sua publicação em livro.
Atacar esse tipo de manifestação do alto de um império de licenciamento e marketing, como é o hábito nessa indústria, é de uma mesquinhez sem tamanho. Pelo menos disso não se pode acusar Davis.
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E exceto por essa ressalva, substitua o nome "Jim Davis" por "Maurício de Sousa" no texto ali no alto pra conhecerem outro bocado das minhas opiniões.
1 day ago


1 comments:
Muito bom texto, explicita bem as decisões e posições de cada um dos três grandes gênios desta mídia de tiras. Concordo com o que foi dito a respeito de Jim, e sim tanto ele quanto Maurício de Souza, exibem um talento talvez até maior para o empreendedorismo que para o cartum em si. Apesar de que fazer um personagem ser algo carismático e vendável é não é uma tarefa simples.
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