Eu não pretendo dar tal quantia, apenas a empresto a você. Quando encontrar outro homem honesto em dificuldade semelhante, você deve me pagar emprestando essa quantia para ele, instruindo-o a liquidar o débito com o mesmo ato, quando lhe for possível e quando encontrar o momento. Eu espero que ela possa, então, seguir por muitas mãos, antes de encontrar um espertalhão que interrompa seu progresso. Esse é um truque meu para fazer um pouco de bem com um pouco de dinheiro.
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Comecei este post pra falar do filme "A Corrente do Bem", mas o conceito por trás dele é tão mais interessante. Existe até uma ONG baseada na idéia, e uma outra, esta surpreendentemente inspirada pelo escritor Robert Heinlein.
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Mas então, o filme. Conheço gente que adora. Costumam ser mulheres.
Eu bem que queria gostar mais, mas ele não ajuda.
Especificamente o final.
É engraçado, geralmente os filmes carecem de alguma coisa. Mais desenvolvimento, mais exposição, mais conflito, mais tempo de silêncio e ponderação.
É raro que algum tenha tudo de que precisa para ser memorável, e ainda outras coisas a mais que quanto mais se acumulam, mais estragam todo o resto. Como um trem que o condutor demora demais pra frear, e acaba passando da estação. Você, ali na plataforma, vê ele chegar, vê ele passar, e fica observando, sabendo que cada segundo é um metro e um pouquinho de fracasso a mais.
O final, com o garoto sendo morto e causando comoção, é absurdamente gratuito. Não faz parte do desenvolvimento da história. Só está lá por causa daquele atavismo sentimentalista do cinemão americano, a impossibilidade conceitual de encerrar um filme em tons de cinza.
O final perfeito ficou alguns minutos para trás. Durante todo o filme, o garoto ajuda um sem-teto viciado em heroína de todas as poucas maneiras e com toda a determinação que uma criança pode. Apesar disso, o sujeito não se regenera. Apesar disso, para seu próprio tormento, lá no fundo ele reconhece a generosidade e a pureza de intenções do menino.
Esse arco de história, escapando do maniqueísmo tentador de mostrar a boa-vontade do menino como motor infalível da redenção alheia, mantém o filme na tensão inquietante necessária para expor um dilema real e inescapável: toda a boa-vontade do mundo não é o suficiente para garantir o sucesso ou a felicidade ou a transformação. O que fazer?
O final perfeito desse filme está na cena em que o sujeito, vagando por uma estrada, vê uma mulher prestes a pular da ponte para se matar. Ele a impede, mas de uma maneira diferente do garoto: este dá algo para os outros, e espera que o presente, um acréscimo ao que existia antes, continue circulando. Ele não precisa de nada em troca.
O viciado em heroína sequer tem como repassar desinteressadamente o que recebeu, mas o faz à sua maneira, chamando a atenção da mulher para a esperança do possível: nem sempre temos algo para dar e acrescentar, às vezes sequer podemos ajudar a nós mesmos. Mas, em toda nossa imperfeição, sempre podemos trocar, e se pudermos contar uns com os outros, isso seria o suficiente para nos fazer seguir em frente e almejar e construir algo melhor.
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Qualquer dia desses compro o DVD e edito o filme, cortando o final e mudando a ordem de algumas cenas, pra ver como ele seria numa versão melhor, um pouco mais curta, bem mais corajosa.
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