A animosidade contra Luluzinha Teen entre jornalistas, entendidos e interessados é curiosa, e é exagerada, mas, vá lá, é compreensível.
Tem a ver com a eficiência brutal com que a Pixel Media destruiu a boa-fé do seu público-alvo original, atrasando e cancelando títulos, e agora eliminando uma linha inteira de publicações.
E também tem a ver com a percepção de que a revista copia, vem no rastro, e quer capitalizar em cima da Mônica Jovem, mais a suposição de que não teria outro objetivo ou pretensão.
E estou falando só daquele momento inicial quando a revista foi anunciada, antes de surgir a primeira ilustração na web.
Depois que surgiu a primeira ilustração na Web, a animosidade virou escárnio: não se parece em nada com a Luluzinha original, a ponto da versão adolescente ter que mostrar uma foto da versão criança para as pessoas fazerem a ligação. Sem falar que a qualidade do novo traço deixa um pouco a desejar.
Até eu tirei uma casquinha.
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Ei, eu sou solidário ao luto das viúvas do Spawn. Mas entendam: o relacionamento da Pixel com vocês terminou. A editora resolveu seguir em frente, tocar a vida, e foi tentar ser feliz com outro público. A Luluzinha Teen não foi criada pra cutucar a ferida: só *parece* que foi.
E quanto a capitalizar em cima da Mônica Jovem e colocar a Pitty na história: no shit, Sherlock? Como se a própria Turma da Mônica também não fosse um produto comercial que capitaliza em cima do meme do momento pra vender mais revistas? Passando na banca ontem, podia jurar que vi uma capa do Cebolinha com Guitar Hero estampado bem grande.
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Mas, pro evidente desgosto de todas as pessoas a quem a revista não se dirige, saiu o número 1 da Luluzinha Teen.
Eu comprei. Sou consumidor compulsivo do novo e do idiossincrático, compro molho de tomate em pó pra ver como é, comprei esse bonequinho do Superman raquítico lá no Japão, e até já ouvi uma música do Sigur Rós.
O que eu quero dizer é: ainda que compartilhasse parte do ceticismo com relação à revista, lá no fundo sempre espero que as coisas me surpreendam. Aquele lance de assistir pela primeira vez a um filme do Charlie Kaufman, ou ler algum livro do Douglas Hofstadter, ou abrir aquela caixa de pizza que está na geladeira há pelo menos dois meses. Entende?
E no caso da reinvenção de um personagem clássico, eu sempre espero que ela traga pelo menos o aroma da genialidade exuberante e impenitente do Super Mouse do Ralph Bakshi.
...É claro que eu estava esperando demais.
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Vou falar dos defeitos primeiro, pra liberar logo quem só está aqui pela schadenfreude.
- Não vou dizer que tem zero a ver com a Luluzinha original, mas é quase isso. Mude os nomes, tire as "fotografias" deles quando criança, e sobra muito, muito pouco. Só ecos da dinâmica entre os personagens, e isso não justifica o licenciamento da marca. Poderiam muito bem ter começado do zero.
- O traço é bastante inconsistente. Vai de seguro, rico e expressivo, como nas páginas 25 a 30, a quase amador, como da 75 a 80. O "controle de qualidade" entre os diferentes desenhistas ficou devendo.
- Além do traço, o design dos personagens é simplório. Suficiente pra identificar quem é quem, mas não exatamente marcante. Faltou investimento criativo.
- As páginas em cores não acrescentam nada, porque falta uma direção qualquer no uso das cores. O objetivo foi, obviamente, privilegiar a aparição da Pitty, daí a decisão estranha dessas páginas estarem perdidas na segunda metade da revista.
- A história é em preto-e-branco, usa retículas, e os personagens têm olhos grandes, e acaba aí a semelhança com mangá. O ritmo da narrativa, que depende tanto do roteirista quanto do desenhista, segue numa marcha só, sem as técnicas de diagramação e elementos expressionistas mais sutis, e no entanto marcantes, das HQs japonesas. E mesmo em termos técnicos, o uso das retículas podia ser um pouco menos intrusivo. Não que esses sejam lá grandes defeitos, longe de mim o purismo estilístico.
- A narrativa não só precisava trocar de marcha ao longo da revista, como chega a desmoronar completamente em alguns pontos. Páginas 61, 62 e 63, por exemplo.
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Porém, todavia, contudo, no entanto e não obstante... tenho que dizer que simpatizei muito com a história.
- É difícil escrever sobre e para adolescentes sem cair no extremo dos comics e mangás para meninos (superpoderes, harém de garotas lindas inexplicavelmente atraídas pelo protagonista patético) nem no extremo absolutamente conservador e asséptico do personagem-enquanto-instituição (Archie). A Luluzinha Teen caminha com confiança nessa corda-bamba, optando por um realismo de simplicidade encantadora. Não conheço outra HQ mainstream que faça isso.
- Considerando a variedade de situações nessa edição, o texto é consideravelmente sólido do começo ao fim. Não é condescendente, nem entupido de gírias. Tentem ler “A Órbita dos Caracóis” pra terem um exemplo do que acontece quando TUDO sai errado nesse quesito. Comprei o livro anos atrás, nunca terminei.
- Outro problema endêmico das histórias para adolescentes é tentar ser “hip” demais. Tudo passa pelo filtro do sarcasmo, cinismo e ironia, como se demonstrar uma emoção ou intenção sincera fosse anti-higiênico. Na Luluzinha Teen, no entanto, há muito pouco desse desagrável distanciamento pós-moderno. Os personagens investem a si próprios em atividades e relações, sem um pingo de cinismo, e com isso correm o risco de se decepcionarem, como de fato acontece mais de uma vez nessa edição. Bolinha faz parte de uma banda e, apesar de tocar bem guitarra, é um péssimo cantor, o que causa desentendimento entre os membros. Luluzinha banca a detetive e erra feio ao fazer uma acusação, e se arrepende disso. Acho muito saudável uma história movida também pela imperfeição dos personagens, com naturalidade e sem excesso de drama.
- A presença da Pitty e o elemento politicamente correto da escola Inova tinham tudo para serem constrangedores, mas achei até que se misturaram bem ao resto. Os personagens da Inova se mostraram tão humanos e falíveis quanto o elenco principal, e o show da Pitty estava encaixado na trama. A idéia do “convidado especial” é legal, difícil é equilibrar isso com a dignidade da história.
- Gostei muito da sutileza e naturalidade com que tratam a ausência dos pais do Alvinho, já que modernidade não é só internet e celular, é também a realidade de mudanças na estrutura da família. Idem pros namoricos incipientes.
- Finalmente, como resultado disso tudo, eu simpatizo com os personagens. Quero saber o que vai acontecer com eles a seguir. Não sei vocês, mas considero isso um grande mérito.
Enfim, essa primeira edição tem uma quantidade de defeitos, mas tem uma coisa mais rara e, pra mim, mais valiosa do que competência técnica: “alma”. Poucas histórias fora do circuito independente são escritas, criadas, ao invés de montadas peça por peça, sem que a soma das partes forme um todo. Ainda mais no Brasil.
Não quero dizer que a revista tenha sido criada por amor à arte, e não por oportunismo mercadológico, ou que as qualidades dessa edição sejam todas planejadas, e não acidentais. Até onde sei, o número dois pode ser um fracasso formidável, do tipo que a gente preserva pra ser estudado pelas gerações futuras.
E não é alta literatura, nem um clássico moderno dos quadrinhos. É junkie-food cultural, é indústria, Disney, Mônica, Garfield. A revolta popular na web por esse tipo de produto é risível.
Mas, até aqui? Gostei, sim. Se serve de referência nesse universo infanto-juvenil, eu não sobreviveria a um episódio inteiro de Malhação. De tempos em tempos releio João Carlos Marinho e Stella Carr. Minha HQ favorita deste ano é o volume 5 do Scott Pilgrim, e minha autora favorita de literatura pra “young adults” no momento é Meg Rosoff.
Vou comprar a próxima edição, espero que seja melhor ainda. Caprichem mais no traço, vai. Dêem uma olhada em uns mangás pra aprender a usar retículas. E não tenham medo de ousar na história: já não tem nada a ver com a Luluzinha original, mesmo.
11 hours ago
