Wednesday, June 10, 2009

"Luluzinha Teen" número 1

A animosidade contra Luluzinha Teen entre jornalistas, entendidos e interessados é curiosa, e é exagerada, mas, vá lá, é compreensível.

Tem a ver com a eficiência brutal com que a Pixel Media destruiu a boa-fé do seu público-alvo original, atrasando e cancelando títulos, e agora eliminando uma linha inteira de publicações.

E também tem a ver com a percepção de que a revista copia, vem no rastro, e quer capitalizar em cima da Mônica Jovem, mais a suposição de que não teria outro objetivo ou pretensão.

E estou falando só daquele momento inicial quando a revista foi anunciada, antes de surgir a primeira ilustração na web.

Depois que surgiu a primeira ilustração na Web, a animosidade virou escárnio: não se parece em nada com a Luluzinha original, a ponto da versão adolescente ter que mostrar uma foto da versão criança para as pessoas fazerem a ligação. Sem falar que a qualidade do novo traço deixa um pouco a desejar.

Até eu tirei uma casquinha.

* * *

Ei, eu sou solidário ao luto das viúvas do Spawn. Mas entendam: o relacionamento da Pixel com vocês terminou. A editora resolveu seguir em frente, tocar a vida, e foi tentar ser feliz com outro público. A Luluzinha Teen não foi criada pra cutucar a ferida: só *parece* que foi.

E quanto a capitalizar em cima da Mônica Jovem e colocar a Pitty na história: no shit, Sherlock? Como se a própria Turma da Mônica também não fosse um produto comercial que capitaliza em cima do meme do momento pra vender mais revistas? Passando na banca ontem, podia jurar que vi uma capa do Cebolinha com Guitar Hero estampado bem grande.

* * *

Mas, pro evidente desgosto de todas as pessoas a quem a revista não se dirige, saiu o número 1 da Luluzinha Teen.

Eu comprei. Sou consumidor compulsivo do novo e do idiossincrático, compro molho de tomate em pó pra ver como é, comprei esse bonequinho do Superman raquítico lá no Japão, e até já ouvi uma música do Sigur Rós.

O que eu quero dizer é: ainda que compartilhasse parte do ceticismo com relação à revista, lá no fundo sempre espero que as coisas me surpreendam. Aquele lance de assistir pela primeira vez a um filme do Charlie Kaufman, ou ler algum livro do Douglas Hofstadter, ou abrir aquela caixa de pizza que está na geladeira há pelo menos dois meses. Entende?

E no caso da reinvenção de um personagem clássico, eu sempre espero que ela traga pelo menos o aroma da genialidade exuberante e impenitente do Super Mouse do Ralph Bakshi.

...É claro que eu estava esperando demais.

* * *

Vou falar dos defeitos primeiro, pra liberar logo quem só está aqui pela schadenfreude.

- Não vou dizer que tem zero a ver com a Luluzinha original, mas é quase isso. Mude os nomes, tire as "fotografias" deles quando criança, e sobra muito, muito pouco. Só ecos da dinâmica entre os personagens, e isso não justifica o licenciamento da marca. Poderiam muito bem ter começado do zero.

- O traço é bastante inconsistente. Vai de seguro, rico e expressivo, como nas páginas 25 a 30, a quase amador, como da 75 a 80. O "controle de qualidade" entre os diferentes desenhistas ficou devendo.

- Além do traço, o design dos personagens é simplório. Suficiente pra identificar quem é quem, mas não exatamente marcante. Faltou investimento criativo.

- As páginas em cores não acrescentam nada, porque falta uma direção qualquer no uso das cores. O objetivo foi, obviamente, privilegiar a aparição da Pitty, daí a decisão estranha dessas páginas estarem perdidas na segunda metade da revista.

- A história é em preto-e-branco, usa retículas, e os personagens têm olhos grandes, e acaba aí a semelhança com mangá. O ritmo da narrativa, que depende tanto do roteirista quanto do desenhista, segue numa marcha só, sem as técnicas de diagramação e elementos expressionistas mais sutis, e no entanto marcantes, das HQs japonesas. E mesmo em termos técnicos, o uso das retículas podia ser um pouco menos intrusivo. Não que esses sejam lá grandes defeitos, longe de mim o purismo estilístico.

- A narrativa não só precisava trocar de marcha ao longo da revista, como chega a desmoronar completamente em alguns pontos. Páginas 61, 62 e 63, por exemplo.

* * *

Porém, todavia, contudo, no entanto e não obstante... tenho que dizer que simpatizei muito com a história.

- É difícil escrever sobre e para adolescentes sem cair no extremo dos comics e mangás para meninos (superpoderes, harém de garotas lindas inexplicavelmente atraídas pelo protagonista patético) nem no extremo absolutamente conservador e asséptico do personagem-enquanto-instituição (Archie). A Luluzinha Teen caminha com confiança nessa corda-bamba, optando por um realismo de simplicidade encantadora. Não conheço outra HQ mainstream que faça isso.

- Considerando a variedade de situações nessa edição, o texto é consideravelmente sólido do começo ao fim. Não é condescendente, nem entupido de gírias. Tentem ler “A Órbita dos Caracóis” pra terem um exemplo do que acontece quando TUDO sai errado nesse quesito. Comprei o livro anos atrás, nunca terminei.

- Outro problema endêmico das histórias para adolescentes é tentar ser “hip” demais. Tudo passa pelo filtro do sarcasmo, cinismo e ironia, como se demonstrar uma emoção ou intenção sincera fosse anti-higiênico. Na Luluzinha Teen, no entanto, há muito pouco desse desagrável distanciamento pós-moderno. Os personagens investem a si próprios em atividades e relações, sem um pingo de cinismo, e com isso correm o risco de se decepcionarem, como de fato acontece mais de uma vez nessa edição. Bolinha faz parte de uma banda e, apesar de tocar bem guitarra, é um péssimo cantor, o que causa desentendimento entre os membros. Luluzinha banca a detetive e erra feio ao fazer uma acusação, e se arrepende disso. Acho muito saudável uma história movida também pela imperfeição dos personagens, com naturalidade e sem excesso de drama.

- A presença da Pitty e o elemento politicamente correto da escola Inova tinham tudo para serem constrangedores, mas achei até que se misturaram bem ao resto. Os personagens da Inova se mostraram tão humanos e falíveis quanto o elenco principal, e o show da Pitty estava encaixado na trama. A idéia do “convidado especial” é legal, difícil é equilibrar isso com a dignidade da história.

- Gostei muito da sutileza e naturalidade com que tratam a ausência dos pais do Alvinho, já que modernidade não é só internet e celular, é também a realidade de mudanças na estrutura da família. Idem pros namoricos incipientes.

- Finalmente, como resultado disso tudo, eu simpatizo com os personagens. Quero saber o que vai acontecer com eles a seguir. Não sei vocês, mas considero isso um grande mérito.

Enfim, essa primeira edição tem uma quantidade de defeitos, mas tem uma coisa mais rara e, pra mim, mais valiosa do que competência técnica: “alma”. Poucas histórias fora do circuito independente são escritas, criadas, ao invés de montadas peça por peça, sem que a soma das partes forme um todo. Ainda mais no Brasil.

Não quero dizer que a revista tenha sido criada por amor à arte, e não por oportunismo mercadológico, ou que as qualidades dessa edição sejam todas planejadas, e não acidentais. Até onde sei, o número dois pode ser um fracasso formidável, do tipo que a gente preserva pra ser estudado pelas gerações futuras.

E não é alta literatura, nem um clássico moderno dos quadrinhos. É junkie-food cultural, é indústria, Disney, Mônica, Garfield. A revolta popular na web por esse tipo de produto é risível.

Mas, até aqui? Gostei, sim. Se serve de referência nesse universo infanto-juvenil, eu não sobreviveria a um episódio inteiro de Malhação. De tempos em tempos releio João Carlos Marinho e Stella Carr. Minha HQ favorita deste ano é o volume 5 do Scott Pilgrim, e minha autora favorita de literatura pra “young adults” no momento é Meg Rosoff.

Vou comprar a próxima edição, espero que seja melhor ainda. Caprichem mais no traço, vai. Dêem uma olhada em uns mangás pra aprender a usar retículas. E não tenham medo de ousar na história: já não tem nada a ver com a Luluzinha original, mesmo.

Wednesday, May 13, 2009

Carta ao Editor

"DEAR EDITOR: I am 8 years old.
"Some of my little friends say there is no Santa Claus Duke Nukem.
"Papa says, 'If you see it in THE SUN it's so.'
"Please tell me the truth; is there a Santa Claus Duke Nukem?

"VIRGINIA O'HANLON.
"115 WEST NINETY-FIFTH STREET."

VIRGINIA, your little friends are wrong. They have been affected by the skepticism of a skeptical age. They do not believe except what they see. They think that nothing can be which is not comprehensible by their little minds. All minds, Virginia, whether they be men's or children's, are little. In this great universe of ours man is a mere insect, an ant, in his intellect, as compared with the boundless world about him, as measured by the intelligence capable of grasping the whole of truth and knowledge.

Yes, VIRGINIA, there is a Duke Nukem. He exists as certainly as love and generosity and devotion exist, and you know that they abound and give to your life its highest beauty and joy. Alas! how dreary would be the world if there were no Duke Nukem.

Not believe in Duke Nukem! You might as well not believe in fairies! (...)

Nobody sees Duke Nukem, but that is no sign that there is no Duke Nukem. The most real things in the world are those that neither children nor men can see. Did you ever see fairies dancing on the lawn? Of course not, but that's no proof that they are not there. Nobody can conceive or imagine all the wonders there are unseen and unseeable in the world. (...)

No Duke Nukem! Thank God! he lives, and he lives Forever. A thousand years from now, Virginia, nay, ten times ten thousand years from now, he will continue to make glad the heart of childhood be in production, to be released when it´s done.

Tuesday, April 28, 2009

Saiu


Tem Ruy Castro, Lúcia Guimarães, Ferreira Gullar, entrevista com Gustavo Franco e Monja Coen, guia de episódios de Dragonball Z.

Wednesday, April 8, 2009

Além da Imaginação

Eu era bebedor serial e compulsivo de Coca-Cola, depois conto a história de como parei.

Mas hoje, algumas semanas sem tomar, comprei uma garrafa. E... minha nossa, como é ruim.

Esvaziei o copo na pia do banheiro, e enxaguei a boca pra tirar o gosto.

Coca talvez seja um dos maiores exemplos de "gosto adquirido", não acredito que dê pra gostar de primeira e sem saber que todo mundo toma e que tem pra vender em todo lugar.

Pra mim, só pode ser peer pressure.

* * *

Aproveitando o nome do post...

Você, usuário responsável do Windows, tem sempre instalada a última atualização de mais de um browser. Digamos, Internet Explorer, o mais popular, com cerca de 90% de penetração entre os usuários, e o Firefox.

Aí, você tem uma conta no Banco Real.

Aí, resolve fazer uma operação pela Internet.

O banco, consciente da necessidade de segurança nesses tempos de fraude online, cria um plugin que deve ser instalado para que você acesse o site e faça suas operações.

Aí, quando vai dar o seu login, e permite a instalação do tal plugin, você descobre que ele não é compatível com nenhuma versão atual dos browsers.

Os novos IE e Firefox foram lançados semanas atrás. Um banco do tamanho do Real certamente não carece de recursos pra atualizar e fazer qualquer tipo de certificação necessária nesse plugin.
Nem num prazo de poucos dias ou horas, se fosse preciso, e certamente, absolutamente, não num folgado e desagradável prazo de mais de uma semana.

E isso sem falar que não há como usar o Chrome no site, e não tenho certeza a respeito do Safari.

Minha nossa, qual é a dificuldade?!

* * *

Fora o cinismo das grandes empresas e o desprezo delas pelo consumidor, é claro.

Aquela nova lei dizendo que as empresas têm que disponibilizar no primeiro momento do atendimento por telefone uma opção pra pessoa cancelar o serviço tem muita cara de reação à Telefonica. Era famoso o seu insultante procedimento interno pra circular os usuários entre os atendentes sem que o pedido de cancelamento fosse atendido, processado ou sequer iniciado, até que o usuário desligasse ou a ligação "misteriosamente" caísse.

Falo por experiência própria.

Agora, imagine: isso aconteceu com muita gente, era um procedimento da empresa pra muito literalmente impedir que as pessoas cancelassem o serviço. Isso foi decidido e implementado.

Cinismo, teu nome é...

Tuesday, April 7, 2009

Nada de coisa nenhuma

O Forasta sabe das coisas:

Eu já falei mil vezes: acho a exigência do diploma de jornalismo uma excrescência criada pela ditadura militar. Sou contra mesmo que as escolas fossem boas, o que não são, o que comprovo cotidianamente convivendo com recém-formados que não sabem nada de coisa nenhuma.

Sunday, April 5, 2009

Body Count 2

Nos Estados Unidos, nos últimos dois anos, 90 foram mortos por atiradores abrindo fogo contra múltiplas vítimas.

Destes 90 nos últimos dois anos... 40 foram mortos desde o dia 10 de março deste ano.

What the fuck?

Será a recessão?

Será que tem a ver com o fato de que, apesar de possuir 5% da população mundial, os EUA possuem entre 35 e 50% das armas em mãos de civis no mundo?

Saturday, April 4, 2009

Body Count

Alguém aí está fazendo a contagem de corpos?

A Electronic Gaming Monthly original, a EGM americana, foi pro saco. Agora, a Blender. Perdi a conta de jornais americanos. Até o NYT está balançando.

Infinitamente menos importante, mas outro sinal dos tempos, a Anime Invasion, derivada da Wizard, acabou de subir no telhado depois de 67 edições. Revistas de anime são um negócio meio amaldiçoado no ocidente, a melhor de todas, MangaMax, britânica, creio que não chegou a 20 edições. A Animerica, da Viz, foi a primeira fatalidade. Dia desses, até a edição americana da Newtype fechou.